O fundamentalismo cristão admite
a Bíblia como única autoridade para suas doutrinas e costumes. Afirma a
autoridade exclusiva da Bíblia, sustentando que é Palavra de Deus no sentido
estrito do termo: provém diretamente de Deus, portanto, livre de todo erro e de
todo condicionamento. Para o fundamentalista, Bíblia, Revelação e Palavra de
Deus são sinônimos.
Para
o fundamentalista, a afirmação da absoluta e da total inerrância e
infalibilidade da Bíblia é de capital importância. Disso dependem, em sua
opinião, a autoridade da Bíblia e sua total confiança nela e, em última
instância, em Deus mesmo. Quando se admite que a Bíblia contem erros –
argumentam - , então não merece nossa total confiança como norma suprema, e não
podemos estar seguros do que Deus quer de nós e para nós. Para o
fundamentalista, o texto da Bíblia é a única norma objetiva (por ser escrita)
que ele aceita, e essa norma vem de Deus mesmo, que a “ditou” aos escritores.
Visto que tem Deus como seu autor, a Bíblia não pode ter erro algum, também em
matéria de história e ciência. Esta é a tese “fundamental” sobre a qual repousa
a estrutura doutrinária do fundamentalismo cristão.
Na
realidade, no entanto, o fundamentalismo não parte da Bíblia mesma, embora
afirme insistentemente que o único fundamento é a Bíblia. De fato, parte de um ideia
que tem a respeito da Bíblia: a ideia de que a Bíblia é o que foi “ditado” por
Deus, portanto, livre de todo erro possível, e de que é a Palavra de Deus
dirigida a ele e que é inalteravelmente válida tal como está escrita, para
todos os séculos. Obviamente, para o fundamentalista, sua interpretação da
Bíblia é a única válida e legítima, e, portanto, toda outra interpretação tem
de ser errônea.
Mas
fundamentalistas nem sempre são literalistas. Antes, adaptam passagens e
doutrinas e, com base nisso, interpretam literal ou figuradamente. O
fundamentalista crê que a única fonte de referência é a Bíblia. Não admite nem
reconhece o papel da tradição, quer dizer, a correlação entre a Bíblia e
tradição.
O
fundamentalista interpreta textos bíblicos, utilizando outros textos bíblicos.
Mas esses textos já foram interpretados previamente segundo os cânones dados
por seu líder ou guia ou instituição, não pela Bíblia! Em ultima análise, o
fundamentalista não se baseia na Bíblia, mas em sua ideia a respeito da bíblia
e nas orientações do líder ou denominação. Crê que suas ideias correspondem às ideias
dos tempos bíblicos, sem dar-se conta de que suas ideias são produto do
desenvolvimento do cristianismo, dos conhecimentos que adquirimos com o tempo e
de nossa visão ocidental (não palestina) da vida e do mundo. A ideia de que a
Bíblia é toda ela por igual Palavra de Deus, a ideia de que Deus de alguma
maneira ditou a Bíblia, a ideia de que não contém erro algum e de nenhum tipo
etc, não provém da Bíblia, mas da tradição posterior a ela, como também foi
posterior a decisão do cânon. Nenhum texto explicita em que consistia a
inspiração, nenhum texto diz que a Bíblia está livre de erros, e nenhum texto
diz qual deveria ser o cânon, o fundamentalista é, então, em boa medida, um
ingênuo.
Além
do mais, o fundamentalista, baseia-se nas interpretações dadas por seu líder
espiritual ou instituição, as quais ele aceita cegamente como verdades
absolutas e inquestionáveis, quase como se viessem de Deus mesmo – costumam ser
tidas como revelações. Assim, por exemplo, os adventistas leem a Bíblia a
partir das interpretações e doutrinas adiantadas por Elena White, e as
Testemunhas de Jeová leem a Bíblia através dos olhos da “Watchtower Society”, os
protestantes por sua denominação, e assim vai... Não é, então, uma leitura e interpretação a
partir da própria Bíblia.
O
fundamentalismo, que é característico de certos ramos do protestantismo, de
muitas seitas, e que se encontra em alguns “círculos de estudo bíblico”, é
eminentemente doutrinário a partir de seu fundamento, e não permite o
questionamento crítico. Está seguro de compreender a bíblia corretamente e de
possuir a verdade, que é incapaz de escutar ou de ler estudos críticos sobre a
Bíblia (a menos que o líder os aprove), desqualificando-os como ímpios,
racionalistas, prejudiciais para a fé. Qualquer questionamento é imediatamente
rejeitado com a acusação de que se está negando que a Bíblia é Palavra de Deus,
e para apoiá-lo saem a brandir, em poucos segundos, três ou quatro textos
bíblicos – desencarnados de todos os seus contextos (literário, situacional,
cultural) – que supostamente fundamentam suas doutrinas. “A Bíblia diz” vem a
ser equivalente a “Deus mesmo diz, e não se pode questionar”. O fundamentalista
é simplesmente incapaz de discutir a respeito da Bíblia ou de alguma passagem
bíblica sem brandir uma meia dúzia de textos que, além do mais, devem ser
interpretados inquestionavelmente à sua maneira de entendê-los. É um circulo
vicioso. Em poucas palavras, o fundamentalista se move na base de um conjunto
de textos que considera chaves, e subordina ou “esquece” os demais,
especialmente palavras que aparecem na boca de Deus ou de algum profeta. Essa
priorização de certos textos certamente não vem da Bíblia: foi o líder que lha
deu. O Fundamentalista enche a boca de textos bíblicos, bem aprendidos,
concatenados de maneira que se apoiem uns aos outros, quase em forma circular,
e não sai deles.
Em
seu recurso à bíblia, o fundamentalista concentra-se especialmente nas
palavras, e vai em busca de doutrinas. Lê a Bíblia como um manual de doutrinas,
especialmente éticas. E estas são válidas para todos os tempos. E por isso
mesmo, não leva em conta questões de gêneros e composição literários, de
situações históricas e culturais, de tradições orais etc. Não está consciente
(ou nega) que se trata de um texto literário composto na antiguidade. Quando se
trata de uma narração, tende a entendê-la como história, sem distinguir mito,
lenda, saga, epopeia. Em poucas palavras, o fundamentalista crê que sua interpretação
da Bíblia corresponde à intenção original, que é a Deus, não dos homens e, por
isso, rejeita toda interpretação que seja produto de estudos críticos.
Para
o fundamentalista, conhecer a Bíblia equivale a conhecer de memória o maior
número de textos e a interpretação dada por seu líder. Isto ele sai a brandir
nos “concursos bíblicos”. Sua fé está centrada nos textos mais do que na
atuação histórica de Deus, por isso, costuma ser “biblicista”. Sua religião é
do livro, não da história – como o islamismo. Sua ética, certamente, costuma
ser igualmente fundamentalista: cumpre-se o que está escrito, porque é mandato
divino – embora na prática omitam muitos mandatos. Alguns até pretendem viver
como nos tempos bíblicos, dando um salto olímpico de alguns milênios. O
Fundamentalista não admite que tenha havido evolução, aprofundamento, adaptação
da Palavra de Deus, quer dizer, não admite a tradição como processo de
interpretação e de atualização (de vida). Passa diretamente de Deus (autor) ao
texto e deste ao presente, como se tivesse sido escrito ontem e aqui.
Notoriamente,
com frequência, a posição fundamentalista é uma ideologia que busca defender em
nome do Deus da Bíblia certos valores tradicionais (sociais, econômicos,
políticos, religiosos) diante dos questionamentos daqueles que pensam com
espírito crítico. Por isso, exigem fé cega nos textos, nas interpretações e nos
líderes, e não toleram questionamento algum.
Eduardo
Arens